Archive for fevereiro \24\+03:30 2011

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Nowruz, no work

In Uncategorized on 24 de fevereiro de 2011 por Ramiro Breitbach

Os iranianos estão começando a entrar no “estado de Nowruz”. Nowruz (نوروز, pra quem não tem obrigação de saber, é o ano novo do calendário persa, que é completamente diferente do nosso, que, afinal de contas é baseado em Jesus,  aqui só mais um barbudo pretensioso,  mais ou menos na mesma categoria do ZZ top ou do Lula.

O “reveillon”de verdade é o dia que nós conhecemos como 21 de março, que para os seguidores do calendário persa (além do Irã, o azerbaijão e outros istãos,  e parte do noroeste chinês) marcará o início do ano da glória de 1390. Muitas pessoas mais simples aqui não tem ideia do que seja janeiro, março , fevereiro e seus amiguinhos. Se alguém disser-lhes que estamos em 2011, podem querer te mandar pro hospício ou pior, pra polícia.

Parece que a instituição do Nowruz data do tempo do zoroastrismo, religião dominante no Irã antes que o Islã chegasse passando o rodo, por volta do século VII DC.

De qualquer maneira, não deixa de ser interessante pensar que algumas datas cercadas de cermiônias no ocidente, como a fatídica virada do milênio (a propósito, nem em época de copa do mundo me lembro de tanta baboseira sendo veiculada na TV) foram dias normais por aqui, tipo uma quarta-feira 13 de maio. A maioria dos iranianos deve ter comido seu kebab e fumado seu narguilé como um dia qualquer.

Divagações à parte, o Nowruz não é verdadeiramente uma data, mas um estado de espírito, como uma nuvem que paira sobre o calendário. Nessa época, que já está começando, o comércio e os serviços são reduzidos ao mínimo dos mínimos. O horário de trabalho , que já não é exatamente draconiano (a maioria das pessoas ai pra casa por volta das 14h30, durante o ano) vira uma verdadeira piada, pra funcionário público brasileiro nenhum botar defeito.

Também é uma época de viajar. Muitos vão ver a família no interior ou esta vem a Teerã parasitar os parentes urbanizados.  Porém, quem tem um pouco mais de grana, viaja mesmo pra fora do país. O destino mais popular é a Armênia, vizinha do Irã ao norte, onde, segundo relatos a mim chegados, não faltam iranianas de minissaia e iranianos vomitando de bêbados pelos cantos, e vice-versa. Fiquei sabendo também que, esse ano (nao sei se é tradição) vários cantores persas banidos pelo regime irão apresentar-se na Armênia durante o Nowruz , como a tal de Googoosh, uma mistura de Elis Regina com Nara Leão deles.

Este fim de semana deslocar-me-ei até o emirado de Dubai. Espero voltar com novidades da Barra da Tijuca do Golfo Pérsico. Até lá

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Volta

In Uncategorized on 17 de fevereiro de 2011 por Ramiro Breitbach Marcado: , , ,

Peço desculpas aos amigos pela ausência de posts nos últimos dias. Um pouco foi pura preguiça. Muita coisa aconteceu nesses dias. Me mudei pro meu novo apartamento, caiu o Mubarak, Berlusconi será processado, o Inter empatou com o Emelec, Ronaldo se aposentou e Sarney, não.

Enquanto isso, aqui no Irã, o governo apertou a censura à já censurada internet, numa espécie de “cyber AI-5”. Além dos troublemakers habituais, como este WordPress, Facebook, tuíter e seus similares, foram bloqueados também saites meio arbitrários como Globoesporte, Estado de S. Paulo e o portal Terra.

Pelo menos hoje tudo na internet iraniana parece estar de volta ao normal, o que quer que isso signifique.

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Churrasquinho de gato persa

In Uncategorized on 4 de fevereiro de 2011 por Ramiro Breitbach Marcado: , ,

Como é de conhecimento geral, a gastronomia é sempre um fator importante  pra conhecer um país e como a sociedade funciona. Aqui não é exceção. Vale mencionar que, como tudo mais na vida no Irã, as esferas públicas e privadas são bem demarcadas e os costumes são bem diferentes em cada uma delas.

Como cheguei há pouco e a maioria dos meus amigos são estrangeiros também, não tenha grande experiência sobre como funciona um lar iraniano de verdade. Minha experiência gastronômica está meio que restrita a restaurantes.

Nesse campo, o Líder Supremo (para usar uma expressão cara ao regime) é o kebab. Praticamente qualquer birosca serve só isso ou alternativas pouco apetitosas como pizza amanhecida e hamburguer de carne de origem duvidosa (provavelmente o Brasil).

Ao contrário da Grécia e da Turquia, onde a regra é aquele tronco de carne exposto às vicissitudes urbanas, aqui o kebab funciona na base do espetinho, como esse aqui no Restaurante do راد (/rad/), aqui perto da Embaixada:

 

É bem difíil achar algo muito diferente disso pra comer no Irã, mas não é ruim

A carne, via de regra, é de cordeiro, já que boi geralmente é importado e um bom corte é bem caro. Geralmente, o kebab é acompanhado de UMA MONTANHA de arroz, acompanhado de um bolinho de… arroz, configurando assim o CLÁSSICO ویولن سل کباب/celo kebab/, que ocupa um lugar nos corações e mentes iranianos próximo à feijoada no Brasil

Essa bacia de arroz é pra ser pra uma pessoa

 

Gosto bastante do kebab daqui, porque sou um grande fã de carne de cordeiro, mas admito que às vezes enche cansa um pouco. Em função das sanções e das PECULIARIDADES políticas do país, não tem tantos restaurantes de cozinha estrangeira em Teerã e os que tem, com exceção dos da região (árabes, indianos) são tocados por iranianos. Mais ou menos como em Brasília, onde só tem sushi man nordestino.

Outro capítulo especial são os menus em inglês. Não existe uma convenção para a transliteração do alfabeto arábico pro romano, então é meio salve-se quem puder. Por exemplo, o nome do aiatolá que no Brasil se escreve Khomeini, em espanhol é Jomeini. Assim como o emirado do golfo é escrito ora Catar, ora Qatar.

Enfim, essa é (eu acho) a explicação para as coisas que a gente vê escrito por aqui em inglês, que variam do cômico ao jocoso:

 

Só pérolas

 

Traduzindo: Tournedos, não tenho idéia, Filé Chateaubriand, e por aí vai

Nem adianta perguntar pro garçom o que vem em cada prato que a única coisa que se entende é o gestual, o que pode gerar situações meio cômicas, como o garçom imitar uma galinha no meio do restô. Ah, claro, tudo isso era kebab, independentemente do nome.

Não posso deixar de mencionar a quase escatológica opção num café de Isfahan:

 

Se fosse no Brasil, alguem acha que teria "special banana milk"no cardápio?

Apesar da bizarria, as coisas no supermercado são, em geral, bem boas, menos os embutidos, já que, como porco é proibido, especula-se que sejam feitos com carne de afegãos. Mas isso é assunto pra outro post.